Um dia na vida de um tradutor juramentado

“Tradutora juramentada? Legal. Mas o que você faz mesmo?”

Já ouvi essa pergunta algumas vezes de uma dúzia de clientes e/ou desavisados.  O ofício de Tradutor Público e Intérprete Comercial (o nome oficial do tradutor juramentado) parece tão antiquado, não é mesmo? E sob certos aspectos é, de fato, anacrônico: é regulamentado por um decreto datado de 1943; é necessária a apresentação dos documentos originais a serem traduzidos; as traduções são entregues somente no formato impresso, já que não existe a tradução juramentada em formato digital ou eletrônico.

Tudo isso faz com que nós TPICs tenhamos um dia de trabalho um pouco diferente da maioria dos outros tradutores. Acabamos tendo um número bem maior de clientes diretos e eventuais do que empresas, escritórios e afins (isso na minha experiência pessoal). Outro ponto é que normalmente temos contato direto com nossos clientes e isso tem um impacto enorme no nosso dia de trabalho. Neste post eu falo um pouco sobre como é um dia típico do meu trabalho como TPIC e comento também algumas particularidades do ofício com relação ao trabalho normal de tradução técnica.

Alguns colegas não se incomodam, mas eu não gosto de receber clientes na minha residência. Por causa do lugar onde moro, além de passar uma impressão pouco profissional, já me aconteceu de pessoas estranhas entrarem sala adentro sem ao menos serem convidadas. A solução que encontrei foi utilizar os serviços de um escritório compartilhado perto da minha casa, onde posso receber pessoas e onde trabalho a maior parte do tempo. E é assim que começo meu dia: entregando, recebendo e conferindo documentos com clientes.

Durante um dia típico de trabalho imagino que um tradutor de outra área receba muitos e-mails de clientes ou agências solicitando orçamentos ou com propostas de trabalho. No meu caso atendo a vários telefonemas, a grande maioria pedindo informações gerais sobre traduções juramentadas – principalmente sobre o preço, claro.

Acredito que essa seja a nossa maior dificuldade hoje: falar sobre preços com nossos clientes. Para quem não sabe, a cobrança dos emolumentos dos tradutores públicos é feita a partir do texto final digitado (conforme tabela das Juntas Comerciais de cada estado), o que vai de encontro às práticas comuns do mercado. Só para dar alguns exemplos, no mundo da tradução técnica em geral é praxe cobrar por palavra do documento original, de forma que qualquer pessoa com um editor de textos pode fazer essa contagem e não haverá surpresas em caso de diferenças de formatação ou mesmo de número de páginas. Já no caso da tradução juramentada o que ocorre é que geralmente tentamos minimizar as surpresas, tentando fazer uma estimativa do valor final dos documentos através da digitalização e contagem de caracteres. Essa estratégia tem funcionado bem no meu caso.

Tem gente que acha que o trabalho de um TPIC é muito repetitivo por causa dos mesmos documentos que sempre recebemos para traduzir: certidões de nascimento e de casamento, carteiras de motorista, históricos escolares, dentre outros. Mas de vez em quando também recebemos coisas muito interessantes: semana passada fiz a tradução de um conjunto de documentos para a abertura uma empresa no Brasil e esse trabalho possibilitou uma pesquisa muito rica sobre a constituição de sociedades no nosso país e no exterior. Sem contar os casos dignos de novela mexicana quando recebemos materiais a serem utilizados em processos de direito de família e direito criminal.

Quando entrego as traduções aos clientes não nego que fico curiosa para saber um pouco mais sobre suas histórias. Afinal, dificilmente ficamos sabendo para onde nossas traduções vão, e se sabemos um pouco sobre de onde elas vêm, essa informação geralmente se limita ao lugar propriamente dito e só. Tento não ser bisbilhoteira, mas quando possível sempre faço uma perguntinha ou outra sobre a história de quem nos procura. Claro que não quero saber nada além do que já contém o boletim de ocorrência que traduzi para uma cliente X, mas quando mais um estudante se candidatando ao Ciência Sem Fronteiras me procura, pergunto ao menos para onde ele vai (o último queria ir para a Hungria, mesmo sem falar lhufas de húngaro – admiro a coragem!).

No final do dia é hora de dar uma pausa para buscar as crianças na creche/escola. Depois de muita brincadeira/jantar/banho/historinha tem caminha e, dependendo do volume de trabalho, mais umas horinhas extras.

Como é o seu dia típico de trabalho? Compartilhe com a gente nos comentários!

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